O Mito da Serotonina: novas pesquisas desafiam décadas de mensagens sobre saúde mental
- 10 de fev.
- 2 min de leitura
Resumo: Uma importante umbrella review (revisão sistemática de revisões) da University College London desafia a crença há muito difundida de que a depressão é causada por baixos níveis de serotonina. O estudo não encontrou evidências convincentes que sustentem a teoria do “desequilíbrio químico”, apesar de décadas de comunicação pública e marketing de medicamentos baseados nessa ideia. Embora os antidepressivos ainda possam ajudar muitas pessoas, os resultados mostram que a depressão é muito mais complexa — influenciada por fatores psicológicos, sociais e ambientais — e incentivam uma abordagem mais ampla e holística no cuidado em saúde mental.
Por anos, o público ouviu uma explicação simples: a depressão é causada por um desequilíbrio químico no cérebro, especificamente por baixos níveis de serotonina. Essa ideia moldou desde campanhas de conscientização em saúde mental até o marketing farmacêutico — e, para muitos, tornou-se a explicação definitiva para a depressão.
Mas um novo e importante estudo está colocando essa narrativa amplamente aceita em dúvida, com implicações profundas.
Pesquisadores da University College London (UCL) publicaram recentemente uma revisão abrangente na revista Molecular Psychiatry, analisando décadas de dados sobre depressão e serotonina. A conclusão foi clara: não há evidências convincentes de que baixos níveis de serotonina causem depressão. Na verdade, alguns achados sugerem que o uso prolongado de certos antidepressivos pode reduzir a atividade da serotonina.
Isso é especialmente relevante porque muitos dos antidepressivos mais prescritos no mundo — os ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) — foram desenvolvidos com base na premissa de que aumentar a serotonina ajuda a aliviar os sintomas depressivos. Se a teoria da deficiência de serotonina não tem respaldo científico, surgem questionamentos importantes sobre como esses medicamentos realmente funcionam e se foram comercializados com base em uma explicação excessivamente simplificada.
Segundo os pesquisadores, até 90% do público ainda acredita na explicação do “desequilíbrio químico”. Embora reconfortante pela sua simplicidade, essa ideia pode, sem intenção, limitar nossa compreensão da depressão, fazendo-a parecer apenas uma falha biológica. Na realidade, a depressão é moldada por uma combinação complexa de fatores psicológicos, emocionais, sociais e ambientais.
Esse equívoco também pode levar as pessoas a negligenciarem tratamentos eficazes que não envolvem medicamentos — como psicoterapia, abordagens informadas pelo trauma, mudanças no estilo de vida e o fortalecimento das redes de apoio social.
É fundamental destacar que o estudo não afirma que os antidepressivos nunca funcionam. Muitas pessoas experimentam alívio real ao usá-los, e a saúde mental é profundamente individual. Em vez disso, os achados incentivam uma compreensão mais cuidadosa, compassiva e holística da depressão — que respeite tanto a biologia quanto a experiência de vida.
A saúde mental não é definida por uma única molécula. Ela é influenciada por relacionamentos, estresse, trauma, ambiente, genética e muito mais. Abraçar essa complexidade abre caminho para um cuidado mais eficaz e centrado no ser humano.
Fonte: “The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence”, Molecular Psychiatry (2022). Autores principais: Joanna Moncrieff et al., University College London (UCL).

